Passou pelo Benfica e joga a 8 km do Emirates Stadium: «Sporting? Quero que o Arsenal passe»
/ Futebol
14-04-2026 10:05
Em Londres existe um clube 'em cada esquina'. Há um português 'em cada canto do mundo'. O zerozero possui uma base de dados com uma dimensão inimaginável (permita-nos a imodéstia). Confuso, caro leitor? Pois bem, acreditamos que este artigo fará com que estas afirmações, aparentemente descontextualizadas, ganhem sentido. Ainda que as deslocações ao estrangeiro sejam sempre entusiasmantes para um jornalista, a verdade é que este momento em específico da nossa profissão é também um dos mais desafiantes que podemos ter. De forma natural, quando percebemos que iríamos acompanhar o Sporting ao Emirates Stadium, para o jogo com o Arsenal, desafiámo-nos a procurar pontos de interesse para possíveis reportagens. Atendendo à dimensão de Londres, fomos elaborando uma lista com os clubes da cidade- sem ligarmos ao patamar competitivo em que estão inseridos - para, posteriormente, procurarmos jogadores portugueses que atuem nas equipas em questão. Clique seguido de clique no nosso portal e... chegámos até {PLAYER_LINK|480220|Herson Alves}, médio ofensivo que atua no {TEAM_LINK|72122|Haringey Borough}, clube que milita no 9.º escalão do futebol inglês (conseguimos justificar a ligeira falta de modéstia?). «Fui o melhor marcador em alguns dos torneios que fiz pelo Benfica» Conseguimos o contacto do jogador de 29 anos com relativa facilidade, sendo que, no processo, percebemos que Jorge Djassi-Sambu, outro dos elementos do plantel do 'Boro', também é português - rapidamente corrigimos a 'nacionalidade inglesa' que constava no nosso site. Sendo certo que conversaríamos também com Jorge, a verdade é que Herson Alves é mesmo a nossa porta de entrada no mágico mundo do futebol 'non league' [divisões inferiores do futebol inglês]. {IMGHALF|DIR|1472637|Herson (segundo em pé a partir da esquerda) com Renato Sanches por baixo} «O início de época não foi muito bom porque a equipa vinha de duas descidas de divisão. No entanto, começámos a melhorar e nos últimos dois/três meses temos estado mesmo muito bem. Somos uma equipa madura e estamos na corrida para vencer a liga», começa por nos dizer Herson, em alusão ao 1.º lugar ocupado pelo Haringey Borough na Spartan South Midlands League neste momento. Revelando que um elemento da equipa técnica se riu quando, no início da época, depois de ter tido uma má temporada em 2024/25, disse que ia fazer «pelo menos dez golos» - leva já 14 -, o médio ofensiva aceita o nosso desafio de embarcar numa viagem ao passado, isto tendo em conta que o nome 'Benfica' se destaca no seu currículo. «Nasci em Lisboa e comecei a jogar na rua e com os amigos na escola. Entretanto, a minha irmã conhecia alguém no Benfica e eu fui lá treinar quando tinha seis/sete anos. Eles gostaram de mim e acabei por ficar durante três anos», explica, indo mais longe: «Lembro-me bem de irmos a torneios e de ganharmos quase todos, fui o melhor marcador em alguns deles. Cruzei-me com alguns jogadores que acabaram por chegar a um patamar alto: o Gonçalo Guedes, o Renato Sanches, o Rúben Dias. Dava-me bem com o Renato Sanches e ainda mantivemos contacto durante algum tempo quando vim para Inglaterra, mas agora, com o avançar dos anos, fomos perdendo ligação.» O 'adeus' às águias aconteceu pouco antes de emigrar para Inglaterra com a mãe, no caso em 2009, numa história muito semelhante à de Jorge Djassi-Sambu. «Vou a pé para o estádio e até levo o meu filho para os treinos» O agora defesa central - iniciou o seu trajeto como extremo e também já jogou a médio - é filho de pai guineense, mas nasceu e cresceu no bairro de São Sebastião de Guerreiros, em Loures. A mudança para Londres deu-se em 2006, quando tinha 15 anos. «Os meus irmãos não vieram, mas, como eu era o filho mais novo, tive de vir com a minha mãe. Ela quis afastar-me das coisas menos positivas que acontecem nos bairros sociais e as coisas acabaram por dar certo aqui. Estudei e comecei a trabalhar, sendo que fui sempre jogando em clubes de menor dimensão», descreve Jorge. Atualmente a trabalhar no setor da recolha de reciclagens, o experiente jogador de 34 anos é perentório quando questionado sobre o porquê de estar no clube há cerca de dez anos: {IMGHALF|ESQ|1472638|Jorge em ação pelo clube} «Gosto de jogar onde me sinto bem e a verdade é que o clube me acolheu muito bem. Para além disso, eu não gosto de viajar muito, pelo que, mesmo tendo clubes de divisões superiores interessados em mim, optei por ficar perto de casa. Vou a pé para o estádio e até levo o meu filho mais velho para os treinos. Todos nos tratam bem e isso é algo mesmo importante para mim.» Trajeto diferente teve Herson, que só chegou ao 'Boro' no início desta temporada. Descoberto por um scout do Brentford pouco depois de ter chegado a Inglaterra, o médio-ofensivo, que agora trabalha como treinador particular de jovens jogadores, admite que teve dificuldades na transição para o futebol sénior. «Estava bem no Brentford, a crescer, mas com 16/17 anos tive uma lesão no joelho que me obrigou a parar durante seis meses - ainda que não tenha sido operado. Pouco depois de regressar, num jogo amigável, tive uma recaída e aí sim, tive de ser operado. Ou seja, a minha transição para o mundo do futebol 'a sério' não foi propriamente fácil», atira Com passagens por Benfica e Brentford - dois bons clubes - na formação arriscamos perguntar a Herson se este achava que iria ter uma carreira melhor do que a que está efetivamente ter. A resposta é sincera: «Sim. Sempre fui um jogador que marcou muitos golos, sei que fazia a diferença nos escalões jovens. Achei mesmo que ia ter uma oportunidade na equipa principal do Brentford, mas essa oportunidade nunca surgiu. Quando tinha 20/21 anos o meu contrato terminou e tenho jogado em equipas de menor expressão em Inglaterra.» «Adeptos do Tottenham vêm ver os nossos jogos» É certo que a realidade do Haringey Borough não é propriamente glamourosa. Ainda assim, os grandes palcos ficam ali bem perto. A 3 e a 8 km, para sermos mais concretos. É esta a distância que separa o recinto onde jogam os nossos interlocutores dos estádios do Tottenham e do Arsenal, respetivamente. «Em dias de jogo fecham as ruas todas e os adeptos fazem mesmo muito barulho. O 'pior' é mesmo quando há dérbi entre Tottenham e Arsenal, mas ter a oportunidade de estar aqui é interessante», explica-nos Jorge, que nos descreve ainda uma realidade curiosa: «Nós estamos perto do estádio do Arsenal, mas estamos ainda mais próximos do estádio do Tottenham. Assim, há muitos adeptos do Tottenham que preferem vir ver os nossos jogos porque dizem que o futebol 'non league' é mais divertida do que a Premier League.» {IMGHALF|DIR|1472636|A equipa do Haringey Borough, com os lusos em destaque} Dentro desta temática, Herson destaca um dos mais recentes jogos em casa: «Quando o Tottenham joga ao domingo, os adeptos vêm ver os nossos jogos no sábado. Por exemplo, recentemente jogámos contra o Winslow United e tivemos 752 adeptos nas bancadas. É uma boa zona para se estar.» As entrevistas com a dupla lusa terminam com a mesma pergunta e, pese embora conversemos com os jogadores de forma indivual, as respostas são bastantes semelhantes. O que espera desta eliminatória entre Sporting e Arsenal (a chamada é feita antes do jogo em Alvalade)? «Sou adepto do Benfica em Portugal e do Arsenal em Inglaterra, portanto o Sporting tem de perder. As minhas equipas em Portugal e em Inglaterra jogam de vermelho, portanto espero que o Sporting seja eliminado [risos]. Quero que o Arsenal passe», vinca Herson, apoiado por Jorge: «Eu sou benfiquista e não tenho aquele sentimento de querer que as outras equipas portuguesas ganhem na Europa [risos]. Se o Sporting for eliminado, vou gozar com os meus amigos sportinguistas. Se passar, vou parabenizá-los - até porque os ingleses têm de ser mais humildes e assim podia gozar com os meus amigos do Arsenal. Fico feliz com todos os cenários [risos].» Tem a palavra a equipa de Rui Borges...
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