É brasileiro e <i>mora no estádio</i> do Bodø/Glimt: «Vejo os jogos e os treinos da minha sala»

/ Futebol

11-03-2026 11:22

Bruno Quadros, engenheiro aeronáutico brasileiro, vive um sonho de qualquer fã de futebol: habitar numa casa com vista privilegiada para um estádio. É certo que o «mora no estádio» utilizado no título deste artigo é ligeiramente exagerado; ainda assim, acredite que o apartamento de Bruno é 'colado' ao recinto do adversário desta quarta-feira do Sporting. O agora adepto do Bodø/Glimt mudou-se para a Noruega em 2019, após receber uma proposta de trabalho. O que começou como uma mudança profissional acabou por se transformar numa ligação ainda mais forte ao futebol e ao Glimt, clube que passou a acompanhar de forma cada vez mais próxima. O zerozero falou com o adepto, que, entre memórias da época passada e a paixão pelo clube, partilhou a expectativa e a emoção que antecedem o confronto com o Sporting, bem como as dificuldades que os leões vão enfrentar no país nórdico. *por David Almeida «Quando visitei o apartamento decidi logo que ia viver aqui» A oportunidade de viver praticamente dentro do estádio surgiu de forma inesperada. Bruno procurava uma nova casa para comprar, quando se deparou com um apartamento com vista direta para o Aspmyra Stadion. «Esta oportunidade de viver no estádio surgiu por acaso. Eu estava à procura de uma moradia para comprar e já tinha visto este lugar na internet, mas achei muito caro. Um dia resolvi visitar o apartamento e, quando entrei, decidi logo que era aqui que queria viver», contou.  A vista privilegiada para o relvado acabou por ser decisiva: «Este lugar tem a minha cara, o meu estilo e a vista para o campo é maravilhosa. A Noruega é um país muito silencioso, muito tranquilo e eu vi aqui uma oportunidade de ter um pouco mais de agitação na minha vida.»         Ver esta publicação no Instagram                       Uma publicação partilhada por Bruno Quadros | Inglês Profissional (@eusoubrunoquadros) O dia a dia é surpreendentemente calmo e o barulho não interfere na sua vida. «É um sítio super tranquilo. Eu vejo os jogos e os treinos das equipas masculinas e femininas - e até das camadas jovens - da minha sala. Ainda assim, o isolamento acústico é ótimo. Se estiver a haver um jogo e eu não quiser assistir, basta fechar a janela e ouço muito pouco ruído vindo lá de fora», revelou. O adepto brasileiro contou ainda que já acompanhava o clube antes de se mudar para o apartamento. No entanto, viver ali tão perto acabou por reforçar ainda mais a ligação emocional. «Antes de morar no estádio já era adepto do Bodo, porque gosto muito de futebol e já tinha visto vários jogos na tribuna. Mas agora que moro aqui sinto-me ainda mais fã do clube», afirmou. A localização privilegiada do apartamento desperta também a curiosidade de muitos adeptos estrangeiros, sobretudo em semanas de jogos europeus. Bruno recebe frequentemente mensagens de pessoas interessadas em arrendar o espaço para assistir às partidas. Ainda assim, prefere viver a experiência de outra forma. «Eu ainda não alugo porque há uma regra no prédio, é necessário ter vivido cá pelo menos um ano para poder começar a arrendar. Intenção eu até tenho, mas se for um jogo contra uma equipa grande da Europa dificilmente o vou fazer porque é uma oportunidade única para mim também. E, no fundo, prefiro ver o jogo com os meus amigos do trabalho.» «O jogo contra o Tottenham foi a inauguração do apartamento» Para os cidadãos de Bodø, o bom desempenho do clube em competições europeias tem elevado o reconhecimento da região. «É o único clube da cidade, que tem cerca de 50 mil habitantes, e está a tornar a região conhecida além das fronteiras da Noruega. Isso significa muito para eles. O norueguês normalmente é muito regionalista, gosta de ficar mais no seu canto, mas sente-se muito orgulhoso por ver que não só o país, mas a própria cidade, ganharam projeção internacional graças ao Bodø/Glimt», afirmou Bruno Quadros.  {IMGHALF|ESQ|1454496|A vista incrível que Bruno tem para o relvado} O adepto considerou que o momento mais marcante desde que se mudou para o Aspmyra Stadion foi a semifinal da UEFA Europa League frente ao Tottenham (0-2), mesmo com a eliminação dos noruegueses. «Aquele jogo marcou-me porque foi a primeira vez que pude ver a poucos metros de distância, no conforto da minha sala e rodeado das coisas de que gosto, uma equipa daquele tamanho jogar. Naquele dia, foi a festa de inauguração do meu apartamento», recordou. Neto de Harald Berg e filho de Ørjan Berg, duas figuras históricas do clube, Patrick Berg é o jogador favorito de Bruno Quadros. O adepto destaca a importância do capitão do Glimt dentro da equipa e acredita que teria lugar em vários clubes europeus. {EPOCA|DIR|JOG|413255|0|0|0|0|0} «É um jogador que muitas equipas gostariam de ter. É um atleta que ajuda na defesa, ajuda no ataque... Basicamente está em todo o lado no campo. A bola circula sempre pelo Patrick e tem um estilo muito parecido ao do Modric. É bonito vê-lo jogar. Ele sente-se bem a jogar aqui. O avô dele tem uma estátua em frente ao estádio por ter jogado vários anos no clube e a esposa dele vai muitas vezes lá manter o lugar limpo e colocar flores», afirmou. O confronto frente ao Sporting, a contar para os oitavos de final da UEFA Champions League, terá um significado especial para a cidade e para os adeptos noruegueses. «Chegar até aqui significa muito. Estamos a falar dos oitavos de final da Champions League, não é fácil chegar até esta fase. Foi uma surpresa para muitos, então só isso já dá uma grande dimensão ao feito», referiu. «Acredito num 3-0 para o Bodø» O Sporting terá pela frente um desafio exigente na deslocação à Noruega, onde terá de lidar com temperaturas baixas e com o relvado sintético do Aspmyra Stadion, fatores que podem dificultar a tarefa da equipa orientada por Rui Borges. {IMGMED|ESQ|1454497|Bruno a ver um jogo com amigos} «Para o jogo do Sporting acredito que a sensação térmica esteja entre os zero e os cinco graus, o que até é razoável para os portugueses. Relativamente ao relvado sintético, certamente pode ser uma vantagem porque muda a dinâmica do jogo. O Bodø/Glimt está habituado a jogar neste tipo de piso, por isso os noruegueses têm uma pequena vantagem», explicou Bruno. Para além de Patrick Berg, Bruno aponta outros jogadores que podem causar problemas à equipa portuguesa: «Temos o Sondre Fet, que é ótimo com o pé esquerdo e que marcou o segundo golo contra o Inter de Milão. O camisola 9, Kasper Høgh, tem feito muitos golos. Também têm o Hauge, que ajuda muito ofensivamente. Há vários jogadores que podem surpreender o Sporting.» O adepto destacou ainda a forma de jogar da equipa norueguesa, que considera muito bem trabalhada coletivamente. «As dificuldades que o Sporting vai enfrentar serão as mesmas que as outras equipas já sentiram aqui. Vão jogar contra uma equipa em que os jogadores se conhecem muito bem. A base da equipa é praticamente a mesma há muitos anos. É uma equipa que não segura muito a bola, os jogadores jogam com um, dois, três toques no máximo e passam para o companheiro», descreveu, indo mais longe: «Jogar contra o Bodø vai ser uma experiência bastante irritante. Eles jogam de uma forma muito envolvente, com vários momentos em que ficam apenas a trocar a bola durante minutos sem que o adversário consiga pressionar. Isso faz-me lembrar muito a seleção brasileira dos anos 70. Vai ser uma experiência irritante para o adversário, até porque são jogadores que cometem poucas faltas e têm um jogo muito limpo.» Perante isto, Bruno deixou muitos elogios ao modelo de gestão do clube. {EPOCA|DIR|EQ|2024|200212|0|0|0|0} «Muitas pessoas deviam ver este jogo para perceber que no futebol moderno não basta ter milhões para investir. Uma equipa de pequena projeção, com um valor de mercado baixo, pode, com boa gestão de grupo, alcançar grandes conquistas. Para mim, este é o segredo», asseverou. Ainda assim, Bruno acredita que, independentemente do resultado do encontro na Noruega, o Bodø/Glimt não sentirá pressão para a segunda mão: «Os noruegueses são muito frios. Eles não entram em desespero. E, independentemente do resultado, eu já tenho os meus bilhetes comprados. Estarei em Portugal na próxima semana, seja qual for o resultado deste primeiro jogo.» Para terminar, deixou também o seu prognóstico para o encontro. «Eu costumo ser bastante otimista e, como moro no estádio e tenho visto de perto os jogos contra estas equipas da Europa, acredito que vai ser 3-0 para o Bodø/Glimt», concluiu.